Total de visualizações de página

quinta-feira, 26 de julho de 2018

AMOR ENTRE ENGIDU E A SACERDOTISA


Um poema da antiguidade 
Extraído de Contos de Ishtar. 
.
Ei-lo mulher! 
Abre teu cinto, 
Descobre teus encantos 
Para que ele te fareje!
Não exites, apanha-o! 
Quando ele te vir, há de apaixonar-se.
Abre então tua veste para que ele se deite sobre ti!
Excita-lhe o êxtase, esse trabalho da mulher. 
Então ele se tornará estranho aos seus animais, 
Aos que nos campos cresceram com ele. 
Seu peito se apertará contra o teu.""

.
Então a sacerdotisa desapertou o cinto, 
Desvendou seus encantos
Para que ele a farejasse.
Ela não hesitou, tomou-o
Abriu a veste para que ele a cobrisse, 
E excitou nele o êxtase, trabalho da mulher. 
Seu peito apertou-se contra o dela
E Egidu esqueceu onde havia nascido.
Este poema de luxúria é do tempo de Gilgamesh.

Conta a história antiga que:
Engidu vivia com os animais e com eles se satisfazia.
Durante seis dias e sete noites Engidu permaneceu como a mulher sagrada. Quando se cansa do prazer, procura seus amigos animais e, como não os vê, entristece. Mas a sacerdotisa o censura: 
"Tu que és soberbo como um deus, por que vives entre os animais dos campos? Vem, vou conduzir-te  a Uruk , onde está Gilgamesh, cujo poder é supremo". Engidu segue-a dizendo: "Leva-me para onde está Glgamesh. Lutarei com ele e demonstrarei minha força, para que os deuses e os maridos se agradem." Mas Gilgamesh o vence, primeiro em força, depois em bondade; Tornam-se amigos; marcham juntos para proteger Uruk, atacada por Elam; e voltam triunfantes. Gilgamesh "retira seu arnez de guerra, veste-se de branco, enfrenta com a real insígnia e põe a diadema." É quando a insaciável Ishtar, tomada de amor, ergue para ele os seus grandes olhos e diz:
"Vem Gilgamesh, vem ser meu esposo! Teu amor, dá-mo como um presente; tu serás meu esposo e eu serei tua esposa. Eu te porei numa carruagem de lápis-lazúli e ouro, com rodas douradas, momtadas em oxis; serás puxado por grandes leões e entrarás em nossa casa dentro do incenso do cedro... Toda a terra perto do mar abraçará teus pés, reis se curvarão diante de ti, e te trarão, como tributos, os dons das montanhas e das planícies. 
.
Mas, Gilgamesh repele-a, e recorda o duro fado por ela infligido a diversos amantes, inclusive Tammuz, um falcão, um garanhão, um leão e um jardineiro. 
"Tu me amas agora", disse ele; depois tu me baterás, como fizeste a estes". 

Pesquisa e postagem: Nicéas Romeo Zanchett 


quinta-feira, 14 de junho de 2018

O TEMPO E A VIDA por Nicéas Romeo Zanchett

  
O TEMPO E A VIDA 

Pelas paredes do tempo
saudoso pendurei meus sonhos. 
E na minha idade tão vivida
 senti novos sonhos brotarem,
novas esperanças e novo amor. 
Sem esquecer o passado
construí minha saudade e 
vi  sonhos de ontem fugirem.
Um aroma espiritual minh'alma invade.
No salgueiro do seu jardim
vi novos sonhos brotarem.
O sabiá apaioxonado
modula cantos de amor. 
E as rosas do jardim florido
enfeitam meu caminho infantil 
com olhos turvos de ternura e deleite.
Lábios rubros,
lábios sensuais,
lábios sedutores.
Sinto a embriagues da paixão
e minh'alma excita meu corpo.
O prazer de viver volta e me invade 
em leito de glória e tesão. 
Nessa vida que tão breve passa
voa o tempo para os amantes.
Pitangueiras e chorões me dão saudade
do mundo de outrora esquecido.
Na abençoada manhã de prazer, 
o gosto de furtivo beijo, beijo de amantes.
De corpo e alma mergulho no gozo.
Prazer de amantes
nesta cama improvisada e passageira,
cama de amantes
minh'alma bem aventurada
 descansa livre e serena.
Nas frescas manhãs de primavera
quando o orvalho cobre as folhas
quero-a dormindo entre meus braços 
até o sol acordar e brilhar sobre a relva
 que derrete em verdes plantas.
A lua chora feliz quando beijo seus olhos, 
num mundo real repleto de gozos.
No céu azul desmaiam as estrelas; 
 e a névoa desdobra o manto da noite.
Entre sombras e luzes que se fundem 
despertam avezinhas gentis.
E o relinchar dos felizes corcéis
que correm pelos campos verdejantes
com o brilho do esplendor luzidio.
Os anjos ainda velam seu sono
neste trono de relva e luar.
Seu corpo alvo e sedoso
 enlouquece meu desejo
de tocar, acariciar, beijar, sentir e amar.

Nicéas Romeo Zanchett 

domingo, 10 de junho de 2018

A CANÇÃO DE ROMEU - Por Olavo Bilac.


Abre a janela... acorda!
Que eu, só por te acordar, 
Vou pulsando a guitarra, corda a corda, 
Ao luar!
.
As estrelas surgiram
Todas: e o limpo véu, 
Com lírios alvíssimos, cobriram
Do céu,
.
De todas a mais bela
Não veio ainda, porém: 
Falta uma estrela... És tu! Abre a janela,
E vem!
.
A alva cortina anciosa
Do leito entreabre; e ao chão
Saltando, o ouvido presta à harmoniosa
Canção. 
.
Solta os cabelos cheios
De aroma: e semi-nus, 
Surjam formosos, trêmulos, teus seios
À luz. 
.
Repousa o espaço mudo; 
Nem numa aragem, vês?
Tudo é silêncio, tudo calma, tudo 
Mudez.
.
Abre a janela, acorda! 
Que eu, só por te acordar, 
Vou pulsando a guitarra corda a corda, 
Ao luar!
.
Que puro céu! que pura 
Noite! nem um rumor...
Só a guitarra em minhas mãos murmura: 
Amor!...
.
Não foi o vento brando
Que ouviste soar aqui: 
É o choro da guitarra, perguntando
Por ti. 
.
Não foi a ave que ouviste, 
Chilrando no jardim:
É a guitarra que geme e trila triste
Assim.
.
Vem, que esta voz secreta
É o canto de Romeu!
Acorda! quem te chama, Julieta,
Sou eu!
Porém... Ó cotovia, 
Silêncio! a aurora, em véus
De nevoa e rosas, não desdobre o dia
Nos céus...
.
Silêncio que ela acorda...
Já fulge o seu olhar...
Adormeça a guitarra, corda a corda, 
Ao luar!
BREVE BIOGRAFIA: 
       Olavo Bilac, poeta e prosador brasileiro, nasceu no Rio de Janeiro a 16 de dezembro de 1865. Estudou medicina no Rio de Janeiro e direito em Recife, mas não concluiu nenhum dos cursos. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. A sua obra capital é uma série de sonetos intitulados Via Láctea que com as panóplias forma a parte principal do seu livro de poesias publicado em 1888. Prosador muito distinto, publicou: Crônicas e novelas, 1893. Colaborou em muitos periódicos e revistas e redigiu O Combate, 1892; A cigarra, 1895: A bruxa, 1898, faleceu em 1918. 
Nicéas Romeo Zanchett 



quinta-feira, 23 de março de 2017

VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA - De Manuel Bandeira

.
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero 
Na cama que escolherei.
.
Vou-me embora pra Pasárgada 
Vou-me embora pra Pasárgada 
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha 
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
.
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei um burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar! 
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
.
Em Pasárgada tem de tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Pra gente namorar.
.
E quando eu estiver triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der 
Vontade de me matar 
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei 
Vou-me embora pra Pasárgada. 
.
Texto extraído do livro"Bandeira a vida inteira", Editora Alumbramento - Rio de Janeiro.
Pesquisa e poetagem: Nicéas Romeo Zanchett 
.
CONHEÇA A OBRA DE ROMEO




domingo, 18 de dezembro de 2016

NATAL - Por Olavo Bilac


NATAL 
Jesus nasceu! Na abobada infinita
Soam cânticos vivos de alegria; 
E toda a vida universal palpita
Dentro daquela pobre estrebaria...
.
Não houve sedas, nem cetins, nem rendas
No berço humilde em que nasceu Jesus...
Mas os pobres trouxeram oferendas
Para quem tinha de morrer na Cruz. 
.
Sobre a palha, risonho, e iluminado
Pelo luar dos olhos de Maria, 
Vede o Menino-Deus, que está cercado
Dos animais da pobre estrebaria.
.
Não nasceu entre pompas reluzentes; 
Na humildade e na paz deste lugar, 
Assim que abriu os olhos inocentes, 
Foi para os pobres seu primeiro olhar. 
.
No entanto, os três reis da terra, pecadores, 
Seguindo a estrela que ao presépio os guia, 
Vieram cobrir de perfumes e flores
O chão daquela pobre estrebaria. 
.
Sobem hinos de amor ao céu profundo; 
Homens, Jesus nasceu Natal! Natal! 
Sobre esta palha está quem salva o mundo
Quem ama os fracos, quem perdoa o Mal! 
.
Natal! Natal! Em toda a Natureza
Há sorrisos e cantos, neste dia...
Salve, Deus da Humanidade e da pobreza, 
Nascido numa pobre estrebaria! 
.
Olavo Bilac, nesta poesia escrita para ser lida por jovens meninos e meninas, canta numa forma muito simples, porém de incontestável beleza, o espetáculo do nascimento de Jesus Cristo. 
Pesquisa e postagem Nicéas Romeo Zanchett 



O NATAL - Por Almeida Garrett


O NATAL 
O César disse do alto do seu trono: 
"Pereça a liberdade!
Quero contar os homens que há na terra, 
Que é minha a humanidade." 
E, cabeça a cabeça, como rezes, 
As gentes são contadas.
 Proconsulares e reis fazem resenha
Das escravas manadas, 
Para mandar a seu senhor de todos 
Que, um pé na Águia romana, 
Com outro oprime o mundo. A isto chegará
A vil progênie humana. 
E era noite de Belém, cidade ilustre 
Da vencida Judeia, 
Que a domada cabeça já não cinge 
Com a palma idumeia: 
Dos aflitos e pobres peregrinos 
Cansados vem chegando
Aos tristes muros, a cumprir do César  
O imperioso bando...
Tarde chegaram: já não há pousadas. 
Que importa que eles venham 
Da estirpe de Jessé, e o sangue régio 
Em suas veias tenham? 
Na geral servidão só uma avulta
Distinção - a riqueza; 
Na corrupção geral só uma avilta
Degradação - pobreza. 
Os filhos de David foram coitar-se 
No presépio entre o gado, 
E dos animais brutos receberam 
Amparo e agasalho. 
E ali nasceu Jesus. Ali a eterna, 
Imensa majestade
Apareceu no mundo - ali começa 
A nova liberdade! 
Pesquisa e postagem: Nicéas Romeo Zanchett  


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

ESPUMAS FLUTUANTES - Por Castro Alves.


ESPUMAS FLUTUANTES 
DEDICATÓRIA 
A pomba d'aliança o voo espraia
Na superfície azul do mar imenso, 
Rente... rente de espuma já desmaia
Medindo a curva do horizonte extenso...
Mas o disco se avista ao longe... A praia 
Rasga nitente o nevoeiro denso!...
O pouso! ó monte! ó ramo de oliveira!
Ninho amigo da pomba forasteira!
.
Assim, meu pobre livro as asas larga
Nesse oceano sem fim, sombrio, eterno...
O mar atira-lhe a saliva amarga,  
O céu atira o temporal de inverno...
O triste verga à tão pesada carga! 
Quem abre ao triste um coração paterno?...
É tão bom ter por árvore - uns carinhos! 
É tão bom ter por afetos - fazer ninhos! 
.
Pobre órfão! Vagando nos espaços
Embalde às solidões mandas um grito! 
Que importa? De uma cruz ao longe os braços 
Vejo abrirem-se ao mísero precito... 
Os túmulos dos teus dão-te regaços! 
Ama-te a sombra do salgueiro aflito... 
Vai, pois, meu livro! e como louro agreste 
Traz-me no bico um ramo de... cipreste! 
.
 Bahia - 1870
.
Pesquisa e postagem:  Nicéas Romeo Zanchett