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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

RETRATO PRÓPRIO - Por Bocage. - Nicéas Romeo Zanchett

 



Breve história biográfica
Manuel Maria Barbosa du Bocage, poeta português, Nasceu em Setubalal a 15 de Setembro de 1765 e morreu a 21 de Dezembro de 1805. Cursou os estudos militares, e como guarda-marinha partiu para a Índia, fazendo-se notar em Gós pela virulência dos seus versos.  Destacado para Damão fugiu para China, indo ter ao fim de muitos trabalhos a Macau, e regressou a Portugal em 1790. As lutas da Nova Arcádia, pela exclusão que lhe infligiram o gênio  de Bocage. Em 1797 foi preso  por autor de "Papeis ímpios  e sediciosos".
Entre esses papéis ímpios achados na habitação de Bocage, os principais eram as poesias conhecidas pelos nomes de  " Vida da Razão e Pavorosa". Dotado de raras faculdades, esbanjou o seu talento em improvisos. Acabou traduzindo poemas didáticos franceses. Deixou Odes, Elegias, Canções, Sátiras, Epístolas, etc., mas são sobretudo os seus sonetos.   

Magro, de olhos azuis, carão moreno, 
Bem servido de pés, médio de altura, 
Triste de fachada, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;  
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Incapaz  de assistir num só terreno, 
Mais propenso ao furor do que à ternura, 
Bebendo em níveas mãos  por taça escura
De zelosa infernais letal veneno:
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Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento, 
E somente no altar amando os frades;
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Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdade
Num dia em que se achou mais pachorrento. .
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Receios de mudança no objeto amado
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Temo que a minha ausência e desventura
Vão na tua alma, docemente acesa, 
Apontando os excessos de firmeza, 
Rebatendo os assaltos de ternura;
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Temo que a tua singular candura
Leve o tempo fugaz nas asas presa, 
Que é quase sempre o vício da beleza
Gênio mudável, condição perjura;
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Temo; e seu fado mau, fado inimigo,
confirmar impiamente este receio, 
Espectro perseguidor, que ainda comigo, 
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Com o rosto, alguma vez de mágoa cheio, 
Recorda-te de mim, doze contigo: 
"Era fiel, amava-me, e deixei-o."
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AS GRAÇAS DE FELISA PREFERÍVEIS, A'S HONRAS E RIQUEZAS
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Incense da Fortuna os vãos altares
Destra venal de astuto lisonjeiro;
Raios vibrando intrépido guerreiro
De nuvens de atro fumo assombre os ares; 
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Domando a fúria de assanhados mares
Sagas comerciante interesseiro, 
Pejado o bojo do baixei veleiro
Opulento saúde os pátrios lares;
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A deusa que por bocas cem respira
Aclame o sábio que medita e vela, 
Fértil em produções que o mundo admira; 
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Minha alma só se apraz, só se desvela
Na glória de cantar ao som da lira
Os olhos de Felisa, as graças dela. 
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ISOMINIA
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Já sobre o coche de ébano estrelado
Deu meio giro a noite escura e feia;
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto Bosque, à luz vedado!
Jaz entre as folhas Zéfiro abafado. 
O Tejo adormeceu na lisa areia; 
Nem o mavioso rouxinol gorjeia, 
nem pia o mocho, às trevas costumado. 
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Só eu velo, só eu, pedindo à sorte
Que o fio, com que está minha alma presa
A' vil matéria lânguida,  me corte; 
Consola-me este horror, esta tristeza; 
Porque a meus olhos se afigura a morte
No silêncio total da natureza.
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SENTIMENTOS DE CONTRIÇÃO E ARREPENDIMENTO
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Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava; 
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana;
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De inúmeros sois e mente ufana
Existência falaz me não durava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida nem sua origem dana.
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Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube, 
No abismo vos  sumiu dos desenganos; 
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Deus, oh Deus... Quando a morte a luz me roube  
Ganhe um momento o que perderam anos, 
Saiba morrer o que viver não soube!
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DITADO ENTRE AGONIAS DO SEU RÂNSITO FINAL.
Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu astro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura;
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Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento;
Musa!... Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura!
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Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade, 
Que atrás do som fantástico corria; 
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Outro Arenito fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia 
Rasga meus versos, crê na eternidade! 
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Nicéas Romeo Zanchett 
Estou dedicando este belo poema de Bocage à Brigite Bardot. A grande musa que soube como ninguém viver os momentos de beleza e glória; como também soube a hora de parar e se dedicar aos animais indefesos que eram sua verdadeira paixão. 
Ninguém é eterno e ela faleceu no dia 28 de dezembro de 2025. Ela nos deixou, mas seu legado perdurará por muito tempo. 
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quarta-feira, 19 de novembro de 2025

 .


A NELSON por Bocage

Precavendo os vai-e-vens da instável sorte, 

E do britano herói zelando a glória, 

Sem mancha, sem desar, dá-lo á memória

Pelas ondas fatais jurou Movarte:


Nelson! Raio do sul! Raio do Norte!

Crestas na lide ao galo e ovante história

Do horror a par de ti surge a vitória;

E louros imortais de cinge a morte.


Não com dor, não com ais e trácio nume

No toro funeral te vê lançado,

Em teus olhos extinto e márcio lume;


Vai (diz) folgar no Olimpo, aluno amado;

O triunfo até aqui foi teu costume,

Do que era teu costume eu fiz teu fado.


Pesquisa e postagem:  Nicéas Romeo Zanchett 


CANÇÃO NOTURNA DE UM VIAJANTE - Por Goethe

 


Por sobre as cumeeiras

Tudo em descanso jaz, 

Nestas regiões cimeiras

Apenas ouvirás 

Um bafo, um sopro leve; 

Dorme a avezinha em paz...

Espera um pouco, em breve

Também descansarás. 


Pesquisa: Nicéas Romeo Zanchett 



sexta-feira, 11 de agosto de 2023

A ÚLTIMA ROSA DE VERÃO - Por Tomas Moore

 .

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É a última rosa

Do verão, sozinha; 

Nenhuma outra resta

Formosa e vizinha, 

Nenhuma irmã sua

Ou botão de rosa

Responde aos suspiros

que exala, formosa.

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Não quero deixar-te

Sozinha a florir:

Tuas irmãs dormem, 

Vai também dormir.

Por isso eis que espalho 

Tuas folhas no chão, 

Onde as irmãs tuas

Já mortas estão. 

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Tão breve eu vá quando

Os que amo fugirem, 

E do anel do amor

As joias caírem. 

Caídos os que ama

No sonho profundo, 

Quem habitaria

Sozinho este mundo? 

1769

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

AS FLORES E OS PINHEIROS - por Machado de Assis

 





Vi os pinheiros no alto da montanha

Ouriçados e velhos; 

E ao sopé da montanha, abrindo as flores

Os cálices vermelhos. 

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Contemplando os pinheiros da montanha, 

As flores tresloucadas

Zombam deles enchendo o espaço em torno

De alegres gargalhadas.

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Quando o outono voltou, vi na montanha

Os meus pinheiros vivos,

Brancos de neve, e meneando ao vento

Os galhos pensativos. 

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Volvi ao sítio onde escutara

Os risos mofadores; 

Procurei-as em vão; tinham morrido

As zombeteiras flores. 

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Nicéas Romeo Zanchett 

LUZ ENTRE SOMBRAS - Por Machado de Assis

 


É noite medonha e escura, 

Muda como o passamento

Uma só no firmamento

Tremula estreita fulgura.

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Fala aos ecos da espessura

A chorosa harpa do vento,

E num canto sonolento

Entre as árvores murmura. 

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Noite que assombra memórias, 

Noite que os medos convida,

Erma, triste, merencoria.

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No entanto ... minh'alma olvida

Dor que transforma em glória,

Morte que se rompe em vida

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Nicéas Romeo Zanchett 

domingo, 9 de julho de 2023

O BEIJO - Por Edmunhom Rostand - Cyrano de Bergerac


  O BEIJO 

Do Cyrano de Bergerac

Um beijo, mas, fim, que grande coisa é essa? 

Jura que de mais perto é jurada, promessa

Mais clara, confissão que quer confirmação. 

Ponto róseo no i da palavra paixão, 

Segedo que se diz à boa em vez da orelha, 

Instante de infinito em sussurro de abelha,

Com resaibo de flor íntima comunhão,  

Modo de respirar um pouco e coração,

E de provar um pouco, a flor dos lábios, a alma.  

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Nicéas Romeo Zanchett