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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

RETRATO PRÓPRIO - Por Bocage. - Nicéas Romeo Zanchett

 



Breve história biográfica
Manuel Maria Barbosa du Bocage, poeta português, Nasceu em Setubalal a 15 de Setembro de 1765 e morreu a 21 de Dezembro de 1805. Cursou os estudos militares, e como guarda-marinha partiu para a Índia, fazendo-se notar em Gós pela virulência dos seus versos.  Destacado para Damão fugiu para China, indo ter ao fim de muitos trabalhos a Macau, e regressou a Portugal em 1790. As lutas da Nova Arcádia, pela exclusão que lhe infligiram o gênio  de Bocage. Em 1797 foi preso  por autor de "Papeis ímpios  e sediciosos".
Entre esses papéis ímpios achados na habitação de Bocage, os principais eram as poesias conhecidas pelos nomes de  " Vida da Razão e Pavorosa". Dotado de raras faculdades, esbanjou o seu talento em improvisos. Acabou traduzindo poemas didáticos franceses. Deixou Odes, Elegias, Canções, Sátiras, Epístolas, etc., mas são sobretudo os seus sonetos.   

Magro, de olhos azuis, carão moreno, 
Bem servido de pés, médio de altura, 
Triste de fachada, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;  
.
Incapaz  de assistir num só terreno, 
Mais propenso ao furor do que à ternura, 
Bebendo em níveas mãos  por taça escura
De zelosa infernais letal veneno:
.
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento, 
E somente no altar amando os frades;
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Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdade
Num dia em que se achou mais pachorrento. .
.
Receios de mudança no objeto amado
.
Temo que a minha ausência e desventura
Vão na tua alma, docemente acesa, 
Apontando os excessos de firmeza, 
Rebatendo os assaltos de ternura;
.
Temo que a tua singular candura
Leve o tempo fugaz nas asas presa, 
Que é quase sempre o vício da beleza
Gênio mudável, condição perjura;
.
Temo; e seu fado mau, fado inimigo,
confirmar impiamente este receio, 
Espectro perseguidor, que ainda comigo, 
.
Com o rosto, alguma vez de mágoa cheio, 
Recorda-te de mim, doze contigo: 
"Era fiel, amava-me, e deixei-o."
.
AS GRAÇAS DE FELISA PREFERÍVEIS, A'S HONRAS E RIQUEZAS
.
Incense da Fortuna os vãos altares
Destra venal de astuto lisonjeiro;
Raios vibrando intrépido guerreiro
De nuvens de atro fumo assombre os ares; 
.
Domando a fúria de assanhados mares
Sagas comerciante interesseiro, 
Pejado o bojo do baixei veleiro
Opulento saúde os pátrios lares;
.
A deusa que por bocas cem respira
Aclame o sábio que medita e vela, 
Fértil em produções que o mundo admira; 
.
Minha alma só se apraz, só se desvela
Na glória de cantar ao som da lira
Os olhos de Felisa, as graças dela. 
.
ISOMINIA
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Já sobre o coche de ébano estrelado
Deu meio giro a noite escura e feia;
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto Bosque, à luz vedado!
Jaz entre as folhas Zéfiro abafado. 
O Tejo adormeceu na lisa areia; 
Nem o mavioso rouxinol gorjeia, 
nem pia o mocho, às trevas costumado. 
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Só eu velo, só eu, pedindo à sorte
Que o fio, com que está minha alma presa
A' vil matéria lânguida,  me corte; 
Consola-me este horror, esta tristeza; 
Porque a meus olhos se afigura a morte
No silêncio total da natureza.
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SENTIMENTOS DE CONTRIÇÃO E ARREPENDIMENTO
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Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava; 
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana;
.
De inúmeros sois e mente ufana
Existência falaz me não durava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida nem sua origem dana.
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Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube, 
No abismo vos  sumiu dos desenganos; 
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Deus, oh Deus... Quando a morte a luz me roube  
Ganhe um momento o que perderam anos, 
Saiba morrer o que viver não soube!
.
DITADO ENTRE AGONIAS DO SEU RÂNSITO FINAL.
Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu astro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura;
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Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento;
Musa!... Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura!
.
Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade, 
Que atrás do som fantástico corria; 
.
Outro Arenito fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia 
Rasga meus versos, crê na eternidade! 
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Nicéas Romeo Zanchett 
Estou dedicando este belo poema de Bocage à Brigite Bardot. A grande musa que soube como ninguém viver os momentos de beleza e glória; como também soube a hora de parar e se dedicar aos animais indefesos que eram sua verdadeira paixão. 
Ninguém é eterno e ela faleceu no dia 28 de dezembro de 2025. Ela nos deixou, mas seu legado perdurará por muito tempo. 
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quarta-feira, 19 de novembro de 2025

 .


A NELSON por Bocage

Precavendo os vai-e-vens da instável sorte, 

E do britano herói zelando a glória, 

Sem mancha, sem desar, dá-lo á memória

Pelas ondas fatais jurou Movarte:


Nelson! Raio do sul! Raio do Norte!

Crestas na lide ao galo e ovante história

Do horror a par de ti surge a vitória;

E louros imortais de cinge a morte.


Não com dor, não com ais e trácio nume

No toro funeral te vê lançado,

Em teus olhos extinto e márcio lume;


Vai (diz) folgar no Olimpo, aluno amado;

O triunfo até aqui foi teu costume,

Do que era teu costume eu fiz teu fado.


Pesquisa e postagem:  Nicéas Romeo Zanchett 


CANÇÃO NOTURNA DE UM VIAJANTE - Por Goethe

 


Por sobre as cumeeiras

Tudo em descanso jaz, 

Nestas regiões cimeiras

Apenas ouvirás 

Um bafo, um sopro leve; 

Dorme a avezinha em paz...

Espera um pouco, em breve

Também descansarás. 


Pesquisa: Nicéas Romeo Zanchett 



sexta-feira, 11 de agosto de 2023

A ÚLTIMA ROSA DE VERÃO - Por Tomas Moore

 .

.


É a última rosa

Do verão, sozinha; 

Nenhuma outra resta

Formosa e vizinha, 

Nenhuma irmã sua

Ou botão de rosa

Responde aos suspiros

que exala, formosa.

.

Não quero deixar-te

Sozinha a florir:

Tuas irmãs dormem, 

Vai também dormir.

Por isso eis que espalho 

Tuas folhas no chão, 

Onde as irmãs tuas

Já mortas estão. 

.

Tão breve eu vá quando

Os que amo fugirem, 

E do anel do amor

As joias caírem. 

Caídos os que ama

No sonho profundo, 

Quem habitaria

Sozinho este mundo? 

1769

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

AS FLORES E OS PINHEIROS - por Machado de Assis

 





Vi os pinheiros no alto da montanha

Ouriçados e velhos; 

E ao sopé da montanha, abrindo as flores

Os cálices vermelhos. 

.

Contemplando os pinheiros da montanha, 

As flores tresloucadas

Zombam deles enchendo o espaço em torno

De alegres gargalhadas.

.

Quando o outono voltou, vi na montanha

Os meus pinheiros vivos,

Brancos de neve, e meneando ao vento

Os galhos pensativos. 

.

Volvi ao sítio onde escutara

Os risos mofadores; 

Procurei-as em vão; tinham morrido

As zombeteiras flores. 

.

Nicéas Romeo Zanchett 

LUZ ENTRE SOMBRAS - Por Machado de Assis

 


É noite medonha e escura, 

Muda como o passamento

Uma só no firmamento

Tremula estreita fulgura.

.

Fala aos ecos da espessura

A chorosa harpa do vento,

E num canto sonolento

Entre as árvores murmura. 

.

Noite que assombra memórias, 

Noite que os medos convida,

Erma, triste, merencoria.

.

No entanto ... minh'alma olvida

Dor que transforma em glória,

Morte que se rompe em vida

.

Nicéas Romeo Zanchett 

domingo, 9 de julho de 2023

O BEIJO - Por Edmunhom Rostand - Cyrano de Bergerac


  O BEIJO 

Do Cyrano de Bergerac

Um beijo, mas, fim, que grande coisa é essa? 

Jura que de mais perto é jurada, promessa

Mais clara, confissão que quer confirmação. 

Ponto róseo no i da palavra paixão, 

Segedo que se diz à boa em vez da orelha, 

Instante de infinito em sussurro de abelha,

Com resaibo de flor íntima comunhão,  

Modo de respirar um pouco e coração,

E de provar um pouco, a flor dos lábios, a alma.  

.

Nicéas Romeo Zanchett 

A MORENINHA - Por Bruno Seabra

 .


Moreninha, dás-me um beijo?

- E o que me dá meu senhor?

- Este cravo...

- Ora, scravo! 

De que me serve uma flor? 

Há tantas flores no campos!

Hei de agora, meu senhor, 

Dar-lhe um beijo por um cravo?

É barato; guarde a flor.

.

- Dá-me um beijo, moreninha, 

Dou- te- um corte de cambraia, - 

- Por um beijo tanto pano!

Compro de graça uma saia!

Olhe que perde na troca, 

Como eu perdera co'a flor; 

Tanto pano por um beijo...

Sai-lhe caro, meu senhor. 

-Anda cá... ouve um segredo...

- Ai, pois quer fiar-se em mim? 

Deus o livre; eu falo muito,

Toda a mulher é assim...

E um segredo... ora um segredo...

Pelos modos que lhe vejo

Quero meu beijo de graça,

Um segredo por um beijo! ?

.

Quero dizer-te aos ouvidos

Que tués uma rainha...

Acha.pois? e o que tem isso? 

Quer ser rei, por vida minha?

- Quem dera que tu quisesses ...

Não duvide, que o farei; 

Meu senhor case com ela, 

A rainha o fará rei...

.

Casar-me? ... ainda sou tão moço...

- Como é criança esta ovelha!

Pois eu para beijar crianças,

Adeusinho, já sou velha. 


Nicéas Romeo Zanchett

 

quarta-feira, 5 de julho de 2023

AS TRÊS FORMIGAS - Por Alberto de oliveira

.



Movendo os pés cor de brasa

Foram as três com cautela, 

Subindo o muro da asa

De dona Estela.

.

- Arriba! diz a primeira.

- Mais de vagar... diz com siso

Segunda. Diz a terceira:

Sei onde piso. 

.

Noite fechada, propícia

Àideia, ao plano que se leva..

Nem de uma brisa a carícia!

Silêncio e  treva!

.

De pronto um grilo de um canto:

_ Onde ides, minha amigas?

E um calafrio de espanto

Nas três formigas. 

.

Ah!... Mas um rosto aparece

Em cima, numa janela...

- É ela? - O rosto parece

De dona Estela!

.

Tri... tri... entre as asas geme

O grilo. E pernalta aranha 

Na trama de ouro em que treme

Quase o apanha. 

.

E agora se atemorizam 

As três. E tudo embaraços!

E o cal somente que pisam

Lhes ouve os passos. 

.

E uma após outra se encaram

Tremendo: ora hesitam, ora 

Conversam baixinho, param 

Por mais de uma hora. 

.

Logo como se fracassa

O muro a um trovão que as gela...

Descera brusca a vidraça

Da dona Elisa.

.

- Melhor é voltarmos, logo

Uma aconselha em segredo; 

Outra abre os olhos de fogo, 

E é toda medo. 

.

Terceira chora, encolhida: 

- Tão alto! já estou cansada!

Meu Deus, nossa pobre vida

Não vale nada.

.

Mas sobem, que é necessário

Subir. Jesus, o benquisto,

Subiu também seu calvário, 

E Elle era o Cristo.

.

Janela, enfim! num alento

Exclama a que mais anseia 

Primeiro ser no aposento

De dona Estela. 

.

-Por esta fresta... - Por esta...

- Melhor... - Entremos. - Avante!

E uma olha, analisa a fresta,

E rompe adiante.

.

Seguem-na as duas. Estreito

É o trilho. Vão. Tal  num berro 

Vai por um tunel direto

Um trem de ferro. 

.

Ei-las estão da outra banda,

Na alcova. E olham em roda, 

À luz da lâmpada, branda,

A alcova toda.

.

E vêm, por entre os adornos

De um leito elegante, a bela

Fronte o perfil, os contorno

De dona Estela. 

.

Azul celeste a parede

Sobre o papel que a  reveste...

E é toda a câmara, vêde:

Azul celeste!

.

Tenda de neve - a cortina; 

Dois bustos, um ramalhete 

Além, descansa botina

Sobre o tapete. 

.

Num quadro de luzidio

Ebano, um vulto guerreiro: 

Perfil severo e sombrio

De cavalheiro

.

De Espanha; olhar atrevido, 

Espada a cinta, e a escarcela...

- É com certeza o marido

De dona Estela.

.

E o espelho... como cintila!

Parece de um lago a nua

Face que leve se anila

Com a luz da lua. 

.

No toucador como esparsa 

Há tanta coisa! um diadena, 

Alva penugem de garça...

Todo um poema!

.

 E um vaso com a ais festiva

Das rosas! - Meus Deus, acaso

Há rosa também que viva

Dentro de um vaso?!

.

 E à flor o assalto preparam

As três formigas... Ai! dela, 

A flor que os lábios beijaram

De dona Estela!

.

Descem o muro. Profundo 

Silêncio. Tudo parece 

A miniatura de um mundo

Que se amortece. 

.

Soem aos moveis. No teto

Nem sombra de asa perdida

Do mais pequenino inseto...

Tudo sem vida!

.

Chegam à rosa. Que altivo

Seio encarnado! Que encanto

Nesse  encarnado lascivo 

Que tem no manto!

.

E se adianta animosa,

Mais esta após. mais aquela...

Ai! rosa, querida rosa

De dona Estela!

.

Correm-lhe as pétalas. Uma 

Desce-lhe ao pólen que toma;

Da boca aos pés se perfuma

Com seu aroma. 

.

Enchem-se de ouro, que é de ouro

Su'álma. Sedas desatam 

Que prendam. Vida, tesouro, 

Tudo arrebatam. 

.

E da assombrosa riqueza

Vendo-se ao fim carregadas

E mais do que da árdua empresa

Recompensadas,  

.

Lá vão a fugir, com o geito

Do que em roubar se desvela...

Mas nisto estremece o leito 

De dona Estela. 

.

É dia. A a dona da alcova

já está de pé: e, ansiosa,

Porque mau sonho renova, 

Vai ver a rosa. 

.

Toma-a do vaso às mãozinhas;

Mas , ao beija-la, a senhora

Descobre as três formiguinhas,  

E. Sopra-as fora. 

.

-Ah! que tufão repentino! 

As três, no ar, na ansiedade

Da queda, exclamam sem tino...

- Que tempestade!

.

 Longe, bem longe, erradias, 

Caíram. Nem se mexeram

De  espanto quase dois dias...

Depois morreram.

.

Eis das forigas o caso. 

A rosa...fale por ela

Outra que é nova no vaso

De dona Estela. 

Nicéas Romeo Zanchett 











 


 

segunda-feira, 3 de julho de 2023

LODO DE ESTRELAS - Por Raimundo Corrêa.

 


Neste Cáspio sem marulhos, 

Sem macaréus, quieto, quieto,

Em vão brota o lodo infecto

Só venenosos tortulhos;  

.

E despovoa os casebres

Vizinhos, lançando aos ventos

Os miasmas pestilentos

Do carbúnculo e das febres; 

.

Em vão sobre ele bafefa

A peste, e , na superfície, 

Boa a nata da imudice

E zumbe a mosca-vreja;

.

Ferve o enxame dos imundos

Vibriões, filhos da lama,

- Deliciosíssima cama

Dos farroupas nauseabundos - 

.

Pelas margens e por cima

Torpes batráquios, coaxando, 

Sobre o charco pulam, quando

Acaso algum se aproxima...

.

Em vão; que Deus n]ao esquece

As coisas mais vis; portanto,  

Sobre esse pútrido manto

Batendo, o sol resplandece. 

.

Nele os olhos azuis cravam 

As estrela vacilantes, 

que em águas tais repugnantes, 

Sem repugnâncias se lavam; 

.

E também nele se banha,

Em horas mortas, a lua, 

Como a Willis toda nua

Das legendas da Alemanha.

.

Nem sempre ele espelha a peste, 

Que às vezes nele os fulgores

Dos íris e as sete cores 

Se estampam do arco celeste. 

.

Deus verte a flama siderea

Na escura e tabida vasa,

É a estranha infecunda brasa

Da podridão deletéria! 

.

Dá-lhe a luz, sem convertê-la

Na luz: pois jamais de todo

Deixa o lodo de ser lodo. 

E a estrela de ser estrela!

.

Mas basta a luz nele acesa, 

Pra que o barro vil reflita

Daquela flama infinita

Toda a infinita grandeza. 



 


 

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

MONÓLOGO DE ALZIRA - Por Voltaire

 

Voltaire

Meu morto amante, em fim, pude ser falsa

A fé, que de jurei... - Não tem remédio,

E a Gusmão para sempre estou sujeita! 

Esse mar, que entre os nossos hemisférios 

Se levanta, separação baldada

Enfim para nós foi!... Sou sua!... os votos

Ouviu o tempo enfim, e estão escritos

Já lá no céu os nossos juramentos. 

Oh tu (que me não deixas) oh querida

Ensanguentada sombra, oh! - Sombra sempre

Presente a meus sentidos lastimados!

Caro amante, se podem minhas lágrimas, 

A perturbação minha, os meus remorsos 

Penetrar teu sepulcro, e à morada

Chegar dos mortos! - Se há um Deus, que possa 

Fazer viver, depois de feito em cinza

Aquele espírito heroico, aquele terno

Coração, tão fiel, e tão mavioso; 

Aquela alma, que até o derradeiro

Suspiro me quis bem - este consórcio 

Me perdoa em que enfim consentir pude. 

Sacrificar-me era forçoso às ordens

De um pai, que tenho, e ao bem de meus vassalos, 

Cuja mãe sou; - a tantos desgraçados, 

Ao pranto dos vencidos, ao sossego

De um mundo, onde (ai de mim) já tu não vives.

Zamor! - deixa que esta alma, que rasgar-se

Está sentindo, siga em paz o horrível

Dever, ao qual os céus me condenaram!

Vê a necessidade; e estes laços

Cruéis permite, - assaz ma têm custado. 

.

Pesquisa e postagem Nicéas Romeo Zanchett 

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BREVE BIOGRAFIA DE VOLTAIRE

O verdadeiro nome de Voltaire é Francisco Maria Arouet, que adotou como escritor. Nasceu em paris, a 21 de Novembro de 1694 e morreu na mesma cidade a 30 de Maio de 1771. Foi educado no colégio de Luis o Grande, dirigido pelos jesuítas e apesar de sus desejarem que ele se formasse em direito, quis ser literato. Tendo incorrido no desagrado do Duque de Orleans, regente da França, este o mandou prender na Bastilha de 17127 a 1718. À prisão seguiu-se uma permanência de três anos na Inglaterra. Na sua agitada vida sempre denunciou a injustiça e a tirania onde quer que se encontrasse, frequentemente levantando contra si as iras dos poderosos. O mundo reconheceu-o  como um dos melhores escritores do seu tempo. Os seus trabalhos são muito numerosos para lhes citar sequer os títulos; algumas edições das suas obras completas chegam a constituir 92 volumes, compreendendo as poesias, os dramas e a prosa. Entre as suas obras primas contam-se História de Charles XII, de 1731; Lettres anglaises, de 1734; Le Siecle de Louiz XIV, de 1751; Essai sur les moeur, de 1756; Candide, de 1759; Várias tragédias entre as quais La mort de César, de 1832; Mohamed, de 1742; Mérope, de 1742; Tancred, de 1760, etc. 

Nicéas Romeo Zanchett 





quarta-feira, 28 de abril de 2021

A LAGOA DOS AMORES - Por Bruno Seabra

 



A  LAGOA DOS AMORES 

Era uma vez, alta noite, 

Nas horas do ressonar, 

Caminhava um marinheiro 

Pelas encostas do mar, 

Esta cantiga cantando, 

Capaz de fazer chorar. 

.

"No oceano da existência

Marinheiro viajei, 

Dentro da gentil lagoinha 

Que mocidade chamei, 

Onde eu era todo ufano 

Como em seu palácio um rei. "

.

"Era piloto  a Esperança 

Da barquinha tão gentil, 

Toda  pintava de listras 

Cor de Rosa, cor de anil,

Singrado, como a gaivota 

Entre as ondas, senhoril."

.

"Quando as velas se entufavam  

Das brisas do Norte ou Sul, 

Era a barquinha uma garça

Pairando num lago azul; 

Nunca um Doge de Veneza

Teve um batel mais taful. " 

.

"Sulcando os mares da vida, 

Parece que a vejo assim; 

Sorrindo a esperança do leme,

Sorrindo a esperança pra mim

Docemente reclinado

Das crenças no camarim. "

.

" E quando o mar se encrespava 

A peso do furacão

Vogava aquela barquinha 

Qual outra nunca vi, não; 

Sem ouvir a voz de - voga!

Do piloto ou capitão. "

.

"Na calmaria ou remanso, 

Na vazante ou preamar, 

Quando a barca adormecia  

Das ondas ao murmurar, 

Eu da proa assim cantava 

Para a barquinha acordar:

"- Desperta, gentil barquinha, 

Que a procela pode vir, 

Pode o - Porto Futuro 

À nossa vista encobrir; 

Voga, voga, Mocidade, 

Busca as praias do - Porvir!"

"E a barquinha despertava, 

E, rompendo a calmaria, 

Singrava sobre o remanso

Como se fosse em porfia;

Mas, um dia... oh! bem me lembro

Dos cachopos desse dia! "

.

"Na lagoa dos amores

A barquinha navegou, 

Sopra o vento contra a popa, 

E a coitada naufragou! 

Piloto que a pilotava 

Nunca tão mal pilotou!..."

.

"Parte a quilha contra as rochas, 

Das ondas ao escarcéu

Assombrou-se a Mocidade, 

E o piloto pereceu!

O capitão deu na costa 

Do - Futuro que perdeu..."

.

"Foi ter naufrago nas praias 

Das - desilusões de amor, 

Quase morre de fadiga, 

Da tormenta no rigor, 

Arribando noutro porto 

O triste navegador!"

.

"Bateleiro sem barquinha 

Não pode mais viajar; 

Marinheiro que naufraga 

Não deve mais navegar; 

Adeus, lagoa de amores, 

Não posso mais embarcar!"

.

"Assim cantava alta noite, 

Nas horas do ressonar, 

Caminhando um marinheiro 

Pelas encostas do mar; 

Não é mais triste a cantiga

Do que era o triste cantar."

.

BIOGRAFIA DO AUTOR

Bruno Seabra, literato e poeta brasileiro, nasceu no Pará em 1837. Autor de Flores e Frutos, aninhas e sertanejos. Morreu em 1876. 

Nicéas Romeo Zanchett 

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.
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sábado, 24 de abril de 2021

UM SONHO - Por Peregrino Maciel Monteiro

 


UM SONHO

Ela foi-se!... E com ela foi minha alma 

Na asa veloz da brisa sussurrante, 

Que ufana do tesouro, que levava, 

Ia... corria... e como vai distante!

.

Voava a brisa, no atrevido rapto

Frisava do oceano a face lisa: 

Eu que a brisa acalmar tentava insano,

Com meus suspiros alentava a brisa!

.

No horizonte esconder-se anuviado

Eu a vi; e dois pontos luminosos 

Apenas onde ela ia me mostravam: 

Eram eles seus olhos lacrimosos!

.

Pouco, e  pouco empanou-se a luz confusa, 

Que me sorria lá dos olhos seus; 

E d'além ondulando uma aura amiga

Aos meus ouvidos repetiu adeus!

.

Nada mais vi eu, nem mesmo um raio

Fulgir a furto de esperança bela; 

Mas meus olhos ilusos descobriram

Numa amável visão a imagem dela.

Esvaiu-se a visão, qual nuvem áurea

Ao bafejar de vespertina aragem; 

Se aos olhos eu perdia a imagem sua, 

No meu peito eu achava a sdua imagem.

.

Ella foi-se!... E com ela foi minha alma

Na asa veloz da brisa sussurrante, 

Que ufana do tesouro que levava, 

Ia... corria... e como vai distante! 

.

BIOGRAFIA;

Antônio Peregrino Maciel Monteiro, barão de Itamaracá, poeta brasileiro, nasceu em Pernambuco a 30 de Abril de 1804 e faleceu em Lisboa a 5 de Outubro de 1868. 

Nicéas Romeo Zanchett

A ARTE DO ROMEO 

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sexta-feira, 23 de abril de 2021

SEUS OLHOS -

 


Seus olhos negros, tão belos, tão puros, 
De vivo luzir,
Estrelas incertas, que as águas dormentes 
Do mar vão florir; 
.
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, 
Tem meiga expressão, 
Mais doce que a brisa, - mais doce que o nauta
De noite cantando, - mais doce que a flauta
Quebrando a solidão. 
.
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, 
De vivo luzir, 
São meigos infantes, gentis, engraçados, 
Brincando a sorrir. 
.
São meigos infantes, brincando, alando 
Em jogo infantil. 
Inquietos, travessos; - causando tormento, 
Com beijos nos pagam a dor de um momento,
Com modo gentil. 
.
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, 
Assim é que são; 
às vezes luzindo, serenos, tranquilos, 
Às vezes vulcão! 
.
Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco, 
Tão frouxo brilhar, 
Que a mim me parece que o ar lhes falece,
E os olhos tão meigos, que o pranto umedece, 
Me fazem chorar. 
.
Assim lindo infante, que dorme tranquilo,
 Desperta a chorar; 
E mudo e sisudo, cismando mil coisas, 
Não pensa - a pensar. 
.
Nas almas tão pura da virgem, do infante
Às vezes do céu 
Cai doce harmonia duma harpa celeste, 
Um vago desejo; e a mente se veste 
Do pranto com um véu.
.
. Quer sejam saudades, quer sejam desejos 
Da pátria melhor;  
Eu amo seus olhos que choram sem causa 
Um pranto sem dor. 
.
Eu amo seus olhos, tão negros, tão puros, 
De vivo fulgor; 
Seus olhos que exprimem tão doce harmonia, 
Que falam de  amores com tanta poesia, 
Com tanto pudor.
.
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, 
Assim é que são; 
Eu amo esses olhos que falam de amores 
Com tanta paixão. 

quinta-feira, 22 de abril de 2021

INTERMEZZO LÍRICO - Por Heine

 


INTERMEZZO LÍRICO 
Tradução de Gonçalves Crespo.
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Rosas  e lírios, pombas, sol radiante, 

Tudo isso outrora, no fugaz passado, 

Eu adorei constante.

.

E desse amor que tive imaculado

Por lírios e aves e sutis perfumes, 

Nem já me lembro, sedutora amante, 

Fonte pura de amor, que em ti resumes

A rosa, o lírio, a pomba e o sol radiante:

.

De um lírio branco no mimoso cálix 

Se eu a fosse depor

A vaga essência de meu peito, em breve

Escutarás no cálice de neve 

Uma canção de amor. 

.

Canção divina relembrando as ânsias, 

E o languido tremor

Daquele beijo, em noite misteriosa, 

Que mederam teus lábios cor de rosa, 

Meu doce e casto amor. 

.

À luz viva do claro sol radioso

O loto inclina a frente esmaecida, 

E espera a noite pensativo e ansioso.

.

Rompe a lua, e derrama a luz querida

Na corola mimosa 

Da pobre flor que se abre enlanguescida. 

Pobre flor amorosa.

Olhando o céu e a luta até parece 

que, em desmaios de amor, 

Treme, palpita, cora e desfalece

.

A cismadora e enamorada flor! 

Nicéas Romeo Zanchett 

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Obra com 135 de largura e 0,90 de altura.
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quarta-feira, 21 de abril de 2021

SAUDADES - por Alvares de Azevedo

 

Pintura de Romeo Zanchett 

SAUDADES

Foi por ti que num sonho de ventura

A flor da mocidade consumi...

E às primaveras disse adeus tão cedo

E na idade do amor envelheci. 

.

Vinte anos! derramei-os gota à gota

Num abismo de dor e esquecimento...

De fogosas visões nutri meu peito...

Vinte anos!... sem viver um só momento! 

.

Contudo, no passado uma esperança

Tanto amor e ventura prometia...

E uma virgem tão doce, tão divina, 

Nos sonhos junto a mim adormecia!...

......................................

Quando eu lia com ela... e no romance

Suspirava melhor ardente nota...

E Jocelyn sonhava com Laurence 

Ou Werther se morria por Carlota...

.

Eu sentia a tremer e a transluzir-lhe

Nos olhos negros a alma inocentinha... 

E uma furtiva lágrima rolando

Da face dela a umedecer a minha!

.

E quantas vezes o luar tardio 

Não viu nossos amores inocentes? 

Não embalou-se da morena virgem

No suspirar, nos cânticos ardentes? 

E quantas vezes não dormi sonhando

Eterno amor, eternas as as venturas... 

E que o céu ia abrir-se e entre os anjos

Eu ia despertar em noites puras?  

.

Foi esse o amor primeiro! requeimou-me 

As artérias febris de juventude, 

Acordou-me dos sonhos da existência

 Na harmonia primeira do alaúde. 

..............................

Meu Deus! e quantas eu amei... Contudo

Das noites voluptuosas da existência

Só restaram-me saudades dessas horas

Que iluminou tua alma de inocência.

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Foram três noites só... três noites belas

De lua e de verão, no vai saudoso...

Que eu pensava existir... sentindo o peito

Sobre teu coração morrer de gozo. 

.

E por três noites padeci três anos, 

Na vida cheia de saudade infinita...

Três anos de esperança e de martírio...

Trêrs anos de sofrer - e espero ainda!

.

A ti se ergueram meus doridos versos, 

Reflexos sem calor de um sol intenso, 

Votei-os à imagem dos amores 

Pra velá-la la nos sonhos como incenso.

.

Eu sonhei tanto amor, tantas venturas, 

Tantas noites de febre e de esperança...

Mas hoje o coração parado e frio, 

Do meu peito descansa. 

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Pálida sombra dos amores santos!

Passa quando eu morrer no meu jazigo, 

Ajoelha ao luar e entoa um canto...

Que lá na morte eu sonharei contigo. 

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Nicéas Romeo Zanchett 

BIOGRAFIA DO AUTOR

Manuel Antônio Álvares de Azevedo, poeta brasileiro, nasceu na cidade de São Paulo a 12 de Setembro de 1831 e faleceu a 25 de Abril de 1852. Bacharel em letras pelo colégio Pedro II, matriculou-se na Academia de direito de São Paulo, mas faleceu antes de terminar o curso. Todas as suas obras foram póstumas. A primeira edição foi publicada em 1853. 

Nicéas Romeo Zanchett 

CONHEÇA A ARTE DO ROMEO

Escultura de Romeo
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domingo, 4 de abril de 2021

AMOR E MEDO por Casimiro de Abreu

 


Casimiro de Abreu

Casimiro José Marques de Abreu, poeta brasileiro, nasceu em S. João da Barra, na então província do Rio de Janeiro, a 4 de Janeiro de 1837, e faleceu a 18 de Outubro de 1860. A sua vocação de poeta foi tenazmente contrariada por seu pai. Esta oposição teve uma influência nefasta na sua saúde já combalida; em uma viagem que fez a Lisboa pouco lhe aproveitou. Escreveu: Canções do Exílio ( 1854); As Primaveras (1859); Camões e o Jau, cena dramática; dois romances: A Virgem Loura e Camila, que deixou inédito. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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AMOR E MEDO
I
Quando eu te fujo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela, 
Contigo dizes, suspirando amores: 
"- Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"
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Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo, 
E se eu te fujo é que te adoro louco...
 Es bela - eu moço; tens amor - eu medo!...
.
Tenho medo de mim, de ti, de tudo, 
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes, 
Das folhas secas, do chorar das fontes, 
Das horas longas a correr velozes. 
.
O véu da noite me atormenta em dores, 
A luz da aurora me entumece os seios, 
E o vento fresco do cair das tardes 
Eu me estremeço de cruéis  receios, 
.
É que esse vento que na várzea - ao longe, 
Do colmo o fumo caprichoso ondeia, 
Soprando um dia tornaria incêndio 
A chama viva que teu riso ateia! 
.
Ai! se abrasado crepitasse o cedro, 
Cedendo ao raio que a tormenta envia, 
Diz: - que seria da plantinha humilde 
Que à sombra dele tão feliz crescia? 
A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho, 
E a pobre nunca reviver pudera
Chovesse embora paternal orvalho! 

II
Ai! se eu te visse no calor da sesta, 
A mão tremente no calor das tuas, 
Amarrotado o teu vestido branco, 
Soltos cabelos nas espáduas nuas!...
.
Ai! se eu te visse, Madalena pura, 
Sobre o veludo reclinada a meio, 
Olhos cerrados na volúpia doce, 
Os braços frouxos - palpitante seio!...
.
Ai! se eu te visse em languidez sublime, 
Na face as rosas virginais do pejo, 
Trêmula a fala a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...
.
Diz: - que seria da pureza d'anjo, 
Das vestes alvas, do candor das asas? 
- Tu te queimaras, a pisar descalça,
- Criança louca, - sobre um chão de brasas! 
No fogo vivo eu me abrasaria inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem
Vil, machucara com meu dedo impuro 
As pobres flores da grinalda virgem!
.
Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra, 
E tu serias no lascivo abraço
Ajo enlodado nos países da terra.
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Depois... desperta no febril delírio, 
- Olhos pisados - como um vão lamento, 
Tu perguntarás: - que é da minha corôa?...
Eu te diria: - Desfolhou-a o vento!...
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Oh! não me chames coração de gelo! 
Bem vês: traí-me no fatal segredo. 
Se de ti fujo, é que te adoro e muito, 
És bela - eu moço; tens amor, eu - medo!...
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Nicéas Romeo Zanchett 
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