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domingo, 9 de julho de 2023

O BEIJO - Por Edmunhom Rostand - Cyrano de Bergerac


  O BEIJO 

Do Cyrano de Bergerac

Um beijo, mas, fim, que grande coisa é essa? 

Jura que de mais perto é jurada, promessa

Mais clara, confissão que quer confirmação. 

Ponto róseo no i da palavra paixão, 

Segedo que se diz à boa em vez da orelha, 

Instante de infinito em sussurro de abelha,

Com resaibo de flor íntima comunhão,  

Modo de respirar um pouco e coração,

E de provar um pouco, a flor dos lábios, a alma.  

.

Nicéas Romeo Zanchett 

A MORENINHA - Por Bruno Seabra

 .


Moreninha, dás-me um beijo?

- E o que me dá meu senhor?

- Este cravo...

- Ora, scravo! 

De que me serve uma flor? 

Há tantas flores no campos!

Hei de agora, meu senhor, 

Dar-lhe um beijo por um cravo?

É barato; guarde a flor.

.

- Dá-me um beijo, moreninha, 

Dou- te- um corte de cambraia, - 

- Por um beijo tanto pano!

Compro de graça uma saia!

Olhe que perde na troca, 

Como eu perdera co'a flor; 

Tanto pano por um beijo...

Sai-lhe caro, meu senhor. 

-Anda cá... ouve um segredo...

- Ai, pois quer fiar-se em mim? 

Deus o livre; eu falo muito,

Toda a mulher é assim...

E um segredo... ora um segredo...

Pelos modos que lhe vejo

Quero meu beijo de graça,

Um segredo por um beijo! ?

.

Quero dizer-te aos ouvidos

Que tués uma rainha...

Acha.pois? e o que tem isso? 

Quer ser rei, por vida minha?

- Quem dera que tu quisesses ...

Não duvide, que o farei; 

Meu senhor case com ela, 

A rainha o fará rei...

.

Casar-me? ... ainda sou tão moço...

- Como é criança esta ovelha!

Pois eu para beijar crianças,

Adeusinho, já sou velha. 


Nicéas Romeo Zanchett

 

quarta-feira, 5 de julho de 2023

AS TRÊS FORMIGAS - Por Alberto de oliveira

.



Movendo os pés cor de brasa

Foram as três com cautela, 

Subindo o muro da asa

De dona Estela.

.

- Arriba! diz a primeira.

- Mais de vagar... diz com siso

Segunda. Diz a terceira:

Sei onde piso. 

.

Noite fechada, propícia

Àideia, ao plano que se leva..

Nem de uma brisa a carícia!

Silêncio e  treva!

.

De pronto um grilo de um canto:

_ Onde ides, minha amigas?

E um calafrio de espanto

Nas três formigas. 

.

Ah!... Mas um rosto aparece

Em cima, numa janela...

- É ela? - O rosto parece

De dona Estela!

.

Tri... tri... entre as asas geme

O grilo. E pernalta aranha 

Na trama de ouro em que treme

Quase o apanha. 

.

E agora se atemorizam 

As três. E tudo embaraços!

E o cal somente que pisam

Lhes ouve os passos. 

.

E uma após outra se encaram

Tremendo: ora hesitam, ora 

Conversam baixinho, param 

Por mais de uma hora. 

.

Logo como se fracassa

O muro a um trovão que as gela...

Descera brusca a vidraça

Da dona Elisa.

.

- Melhor é voltarmos, logo

Uma aconselha em segredo; 

Outra abre os olhos de fogo, 

E é toda medo. 

.

Terceira chora, encolhida: 

- Tão alto! já estou cansada!

Meu Deus, nossa pobre vida

Não vale nada.

.

Mas sobem, que é necessário

Subir. Jesus, o benquisto,

Subiu também seu calvário, 

E Elle era o Cristo.

.

Janela, enfim! num alento

Exclama a que mais anseia 

Primeiro ser no aposento

De dona Estela. 

.

-Por esta fresta... - Por esta...

- Melhor... - Entremos. - Avante!

E uma olha, analisa a fresta,

E rompe adiante.

.

Seguem-na as duas. Estreito

É o trilho. Vão. Tal  num berro 

Vai por um tunel direto

Um trem de ferro. 

.

Ei-las estão da outra banda,

Na alcova. E olham em roda, 

À luz da lâmpada, branda,

A alcova toda.

.

E vêm, por entre os adornos

De um leito elegante, a bela

Fronte o perfil, os contorno

De dona Estela. 

.

Azul celeste a parede

Sobre o papel que a  reveste...

E é toda a câmara, vêde:

Azul celeste!

.

Tenda de neve - a cortina; 

Dois bustos, um ramalhete 

Além, descansa botina

Sobre o tapete. 

.

Num quadro de luzidio

Ebano, um vulto guerreiro: 

Perfil severo e sombrio

De cavalheiro

.

De Espanha; olhar atrevido, 

Espada a cinta, e a escarcela...

- É com certeza o marido

De dona Estela.

.

E o espelho... como cintila!

Parece de um lago a nua

Face que leve se anila

Com a luz da lua. 

.

No toucador como esparsa 

Há tanta coisa! um diadena, 

Alva penugem de garça...

Todo um poema!

.

 E um vaso com a ais festiva

Das rosas! - Meus Deus, acaso

Há rosa também que viva

Dentro de um vaso?!

.

 E à flor o assalto preparam

As três formigas... Ai! dela, 

A flor que os lábios beijaram

De dona Estela!

.

Descem o muro. Profundo 

Silêncio. Tudo parece 

A miniatura de um mundo

Que se amortece. 

.

Soem aos moveis. No teto

Nem sombra de asa perdida

Do mais pequenino inseto...

Tudo sem vida!

.

Chegam à rosa. Que altivo

Seio encarnado! Que encanto

Nesse  encarnado lascivo 

Que tem no manto!

.

E se adianta animosa,

Mais esta após. mais aquela...

Ai! rosa, querida rosa

De dona Estela!

.

Correm-lhe as pétalas. Uma 

Desce-lhe ao pólen que toma;

Da boca aos pés se perfuma

Com seu aroma. 

.

Enchem-se de ouro, que é de ouro

Su'álma. Sedas desatam 

Que prendam. Vida, tesouro, 

Tudo arrebatam. 

.

E da assombrosa riqueza

Vendo-se ao fim carregadas

E mais do que da árdua empresa

Recompensadas,  

.

Lá vão a fugir, com o geito

Do que em roubar se desvela...

Mas nisto estremece o leito 

De dona Estela. 

.

É dia. A a dona da alcova

já está de pé: e, ansiosa,

Porque mau sonho renova, 

Vai ver a rosa. 

.

Toma-a do vaso às mãozinhas;

Mas , ao beija-la, a senhora

Descobre as três formiguinhas,  

E. Sopra-as fora. 

.

-Ah! que tufão repentino! 

As três, no ar, na ansiedade

Da queda, exclamam sem tino...

- Que tempestade!

.

 Longe, bem longe, erradias, 

Caíram. Nem se mexeram

De  espanto quase dois dias...

Depois morreram.

.

Eis das forigas o caso. 

A rosa...fale por ela

Outra que é nova no vaso

De dona Estela. 

Nicéas Romeo Zanchett 











 


 

segunda-feira, 3 de julho de 2023

LODO DE ESTRELAS - Por Raimundo Corrêa.

 


Neste Cáspio sem marulhos, 

Sem macaréus, quieto, quieto,

Em vão brota o lodo infecto

Só venenosos tortulhos;  

.

E despovoa os casebres

Vizinhos, lançando aos ventos

Os miasmas pestilentos

Do carbúnculo e das febres; 

.

Em vão sobre ele bafefa

A peste, e , na superfície, 

Boa a nata da imudice

E zumbe a mosca-vreja;

.

Ferve o enxame dos imundos

Vibriões, filhos da lama,

- Deliciosíssima cama

Dos farroupas nauseabundos - 

.

Pelas margens e por cima

Torpes batráquios, coaxando, 

Sobre o charco pulam, quando

Acaso algum se aproxima...

.

Em vão; que Deus n]ao esquece

As coisas mais vis; portanto,  

Sobre esse pútrido manto

Batendo, o sol resplandece. 

.

Nele os olhos azuis cravam 

As estrela vacilantes, 

que em águas tais repugnantes, 

Sem repugnâncias se lavam; 

.

E também nele se banha,

Em horas mortas, a lua, 

Como a Willis toda nua

Das legendas da Alemanha.

.

Nem sempre ele espelha a peste, 

Que às vezes nele os fulgores

Dos íris e as sete cores 

Se estampam do arco celeste. 

.

Deus verte a flama siderea

Na escura e tabida vasa,

É a estranha infecunda brasa

Da podridão deletéria! 

.

Dá-lhe a luz, sem convertê-la

Na luz: pois jamais de todo

Deixa o lodo de ser lodo. 

E a estrela de ser estrela!

.

Mas basta a luz nele acesa, 

Pra que o barro vil reflita

Daquela flama infinita

Toda a infinita grandeza. 



 


 

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

MONÓLOGO DE ALZIRA - Por Voltaire

 

Voltaire

Meu morto amante, em fim, pude ser falsa

A fé, que de jurei... - Não tem remédio,

E a Gusmão para sempre estou sujeita! 

Esse mar, que entre os nossos hemisférios 

Se levanta, separação baldada

Enfim para nós foi!... Sou sua!... os votos

Ouviu o tempo enfim, e estão escritos

Já lá no céu os nossos juramentos. 

Oh tu (que me não deixas) oh querida

Ensanguentada sombra, oh! - Sombra sempre

Presente a meus sentidos lastimados!

Caro amante, se podem minhas lágrimas, 

A perturbação minha, os meus remorsos 

Penetrar teu sepulcro, e à morada

Chegar dos mortos! - Se há um Deus, que possa 

Fazer viver, depois de feito em cinza

Aquele espírito heroico, aquele terno

Coração, tão fiel, e tão mavioso; 

Aquela alma, que até o derradeiro

Suspiro me quis bem - este consórcio 

Me perdoa em que enfim consentir pude. 

Sacrificar-me era forçoso às ordens

De um pai, que tenho, e ao bem de meus vassalos, 

Cuja mãe sou; - a tantos desgraçados, 

Ao pranto dos vencidos, ao sossego

De um mundo, onde (ai de mim) já tu não vives.

Zamor! - deixa que esta alma, que rasgar-se

Está sentindo, siga em paz o horrível

Dever, ao qual os céus me condenaram!

Vê a necessidade; e estes laços

Cruéis permite, - assaz ma têm custado. 

.

Pesquisa e postagem Nicéas Romeo Zanchett 

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BREVE BIOGRAFIA DE VOLTAIRE

O verdadeiro nome de Voltaire é Francisco Maria Arouet, que adotou como escritor. Nasceu em paris, a 21 de Novembro de 1694 e morreu na mesma cidade a 30 de Maio de 1771. Foi educado no colégio de Luis o Grande, dirigido pelos jesuítas e apesar de sus desejarem que ele se formasse em direito, quis ser literato. Tendo incorrido no desagrado do Duque de Orleans, regente da França, este o mandou prender na Bastilha de 17127 a 1718. À prisão seguiu-se uma permanência de três anos na Inglaterra. Na sua agitada vida sempre denunciou a injustiça e a tirania onde quer que se encontrasse, frequentemente levantando contra si as iras dos poderosos. O mundo reconheceu-o  como um dos melhores escritores do seu tempo. Os seus trabalhos são muito numerosos para lhes citar sequer os títulos; algumas edições das suas obras completas chegam a constituir 92 volumes, compreendendo as poesias, os dramas e a prosa. Entre as suas obras primas contam-se História de Charles XII, de 1731; Lettres anglaises, de 1734; Le Siecle de Louiz XIV, de 1751; Essai sur les moeur, de 1756; Candide, de 1759; Várias tragédias entre as quais La mort de César, de 1832; Mohamed, de 1742; Mérope, de 1742; Tancred, de 1760, etc. 

Nicéas Romeo Zanchett 





quarta-feira, 28 de abril de 2021

A LAGOA DOS AMORES - Por Bruno Seabra

 



A  LAGOA DOS AMORES 

Era uma vez, alta noite, 

Nas horas do ressonar, 

Caminhava um marinheiro 

Pelas encostas do mar, 

Esta cantiga cantando, 

Capaz de fazer chorar. 

.

"No oceano da existência

Marinheiro viajei, 

Dentro da gentil lagoinha 

Que mocidade chamei, 

Onde eu era todo ufano 

Como em seu palácio um rei. "

.

"Era piloto  a Esperança 

Da barquinha tão gentil, 

Toda  pintava de listras 

Cor de Rosa, cor de anil,

Singrado, como a gaivota 

Entre as ondas, senhoril."

.

"Quando as velas se entufavam  

Das brisas do Norte ou Sul, 

Era a barquinha uma garça

Pairando num lago azul; 

Nunca um Doge de Veneza

Teve um batel mais taful. " 

.

"Sulcando os mares da vida, 

Parece que a vejo assim; 

Sorrindo a esperança do leme,

Sorrindo a esperança pra mim

Docemente reclinado

Das crenças no camarim. "

.

" E quando o mar se encrespava 

A peso do furacão

Vogava aquela barquinha 

Qual outra nunca vi, não; 

Sem ouvir a voz de - voga!

Do piloto ou capitão. "

.

"Na calmaria ou remanso, 

Na vazante ou preamar, 

Quando a barca adormecia  

Das ondas ao murmurar, 

Eu da proa assim cantava 

Para a barquinha acordar:

"- Desperta, gentil barquinha, 

Que a procela pode vir, 

Pode o - Porto Futuro 

À nossa vista encobrir; 

Voga, voga, Mocidade, 

Busca as praias do - Porvir!"

"E a barquinha despertava, 

E, rompendo a calmaria, 

Singrava sobre o remanso

Como se fosse em porfia;

Mas, um dia... oh! bem me lembro

Dos cachopos desse dia! "

.

"Na lagoa dos amores

A barquinha navegou, 

Sopra o vento contra a popa, 

E a coitada naufragou! 

Piloto que a pilotava 

Nunca tão mal pilotou!..."

.

"Parte a quilha contra as rochas, 

Das ondas ao escarcéu

Assombrou-se a Mocidade, 

E o piloto pereceu!

O capitão deu na costa 

Do - Futuro que perdeu..."

.

"Foi ter naufrago nas praias 

Das - desilusões de amor, 

Quase morre de fadiga, 

Da tormenta no rigor, 

Arribando noutro porto 

O triste navegador!"

.

"Bateleiro sem barquinha 

Não pode mais viajar; 

Marinheiro que naufraga 

Não deve mais navegar; 

Adeus, lagoa de amores, 

Não posso mais embarcar!"

.

"Assim cantava alta noite, 

Nas horas do ressonar, 

Caminhando um marinheiro 

Pelas encostas do mar; 

Não é mais triste a cantiga

Do que era o triste cantar."

.

BIOGRAFIA DO AUTOR

Bruno Seabra, literato e poeta brasileiro, nasceu no Pará em 1837. Autor de Flores e Frutos, aninhas e sertanejos. Morreu em 1876. 

Nicéas Romeo Zanchett 

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sábado, 24 de abril de 2021

UM SONHO - Por Peregrino Maciel Monteiro

 


UM SONHO

Ela foi-se!... E com ela foi minha alma 

Na asa veloz da brisa sussurrante, 

Que ufana do tesouro, que levava, 

Ia... corria... e como vai distante!

.

Voava a brisa, no atrevido rapto

Frisava do oceano a face lisa: 

Eu que a brisa acalmar tentava insano,

Com meus suspiros alentava a brisa!

.

No horizonte esconder-se anuviado

Eu a vi; e dois pontos luminosos 

Apenas onde ela ia me mostravam: 

Eram eles seus olhos lacrimosos!

.

Pouco, e  pouco empanou-se a luz confusa, 

Que me sorria lá dos olhos seus; 

E d'além ondulando uma aura amiga

Aos meus ouvidos repetiu adeus!

.

Nada mais vi eu, nem mesmo um raio

Fulgir a furto de esperança bela; 

Mas meus olhos ilusos descobriram

Numa amável visão a imagem dela.

Esvaiu-se a visão, qual nuvem áurea

Ao bafejar de vespertina aragem; 

Se aos olhos eu perdia a imagem sua, 

No meu peito eu achava a sdua imagem.

.

Ella foi-se!... E com ela foi minha alma

Na asa veloz da brisa sussurrante, 

Que ufana do tesouro que levava, 

Ia... corria... e como vai distante! 

.

BIOGRAFIA;

Antônio Peregrino Maciel Monteiro, barão de Itamaracá, poeta brasileiro, nasceu em Pernambuco a 30 de Abril de 1804 e faleceu em Lisboa a 5 de Outubro de 1868. 

Nicéas Romeo Zanchett

A ARTE DO ROMEO 

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