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quarta-feira, 28 de maio de 2014

VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA - Manuel Bandeira


VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA
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Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei 
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
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Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana, a louca de Espanha, 
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive. 
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei um burro brabo, 
Subirei no pau de sebo, 
Tomarei banhos de mar! 
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu-menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada.
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Em Pasárgada tem de tudo,
é outra civilização.
 Tem um processo seguro
De impedir a concepção. 
Tem telefone automático, 
Tem alcaloide à vontade, 
Tem prostitutas bonitas
Pra gente namorar. 
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E quando eu estiver mais triste,  
Mais triste de não ter jeito, 
Quando a noite me der 
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei - 
Terei a mulher que quero 
Na cama que escolherei.
Vou-me embora pra Pasárgada. 
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 Manuel Bandeira 
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quarta-feira, 23 de abril de 2014

BELEZA E BONDADE - Por Safo, a poetisa de Lesbos

Pintura a óleo de Romeo Zanchett 
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BELEZA E BONDADE
Por Safo 
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Quando ávida contemplo a formosura, 
Tão breve é meu prazer que foge com ela; 
Mas bondade e lisura, 
Mas a inocência, oh! essa é sempre bela.
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Saiba tudo sobre a poetisa e sua Ilha de Lesbos clicando no Link abaixo 

CANTIGA ANACREÔNTICA - Por Marquesa D'Alorna


CANTIGA ANACREÔNTICA 
Por Marquesa D'Alorna 
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Dentre as canas buliçosas
Leve Zéfiro respira, 
Movem-se as folhas lustrosas,
Amor palpita e suspira. 
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Nestes doces movimentos
Vão-se as sombras desfazendo, 
Vão-se espreguiçando os Ventos, 
Lúcifer esmorecendo. 
Vai-se a manhã levantando, 
Acordam com ela as cores, 
Vão com ela despertando
 Pardas rochas, lindas flores. 
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Ante os raios refulgentes
Cessa o tímido  segredo, 
Abrilhantam-se as correntes, 
Nascem coros no arvoredo. 
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Sai do seio do descanso
Vigorada a fantasia; 
As ideias são mais claras 
Na hora em que nasce o dia. 
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Depois de um sono quieto
Tudo acorda com vigor; 
Porque razão quando dorme
Não desperta assim o amor?
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BREVE BIOGRAFIA 
           Dona Leonor d'Almeida Lorena e Lencastre, Condessa de Oeyenhausen, Marquesa D'Alorna, poetisa portuguesa, nasceu em Lisboa a 31 de Outubro de 1750 e morreu em Benfica a 11 de Outubro de 1839. Foi celebrada pelos poetas da Arcádia sob o nome de Alcype. Parte de sua infância passou-a no convento de Chellas por ordem do Marques de Pombal que mandou também encerrar seus pais e o irmão somente porque eram parentes dos Tavoras. Em 1779 desposou o conde de Oeyenhausen. Muito conhecida pelos seus talentos literários, deixou várias composições poéticas, umas originais e outras traduzidas por poetas célebres, que foram reunidas em 6 volumes. 
Nicéas Romeo Zanchett 
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A UMA ROSA - Por Marques Rodrigues


A UMA ROSA 
Por Marques Rodrigues 
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Minha rosa perfumada, 
Não deixes o Beija-flor
Beijar a folha agitada, 
Provar do mel o sabor! 
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Bem o sei, é bem formoso, 
E tu não podes negar 
O beijo ardente, amoroso
Na rubra face a escaldar...
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Que importa as cores que veste, 
A fúlgida cor do rubim, 
A esmeralda, o azul celeste
Nas asas tremendo emfim?

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Quem voa de rosa em rosa
Amor, constância não tem; 
A chama de amor mimosa
Ardendo em silêncio vem ...
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Ai não sejas imprudente, 
O' gentil, mimosa flor; 
Ao volúvel não constante
Provar do mel o sabor! 
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BREVE BIOGRAFIA 
           Antônio Marques Rodrigues, poeta brasileiro, nasceu em São Luiz a 15 de Abril de 1826 e faleceu em Avintes, Portugal, a 14 de Abril de 1873. Fez os seus primeiros estudos em Portugal. Viajou em seguida pela França e Inglaterra e, voltando ao Brasil, bacharelou-se em direito em pernambuco. Foi professor do liceu de São Luiz e deputado provincial por diversas vezes.  Suas poesias, esparsas em jornais e revistas, foram uma só voz e colecionadas nas Três Liras, 1862. 
Nicéas Romeo Zanchett


segunda-feira, 14 de abril de 2014

INDIFERENÇA - Por João de Deus


INDIFERENÇA 
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Ora diz-me a verdade: 
Tu já sentiste por mim 
Uma sombra de saudade
De amor, de ciume; emfim, 
Uma impressão que indicasse 
Haver em teu coração 
Fibra, corda que vibrasse 
À minha recordação? 
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Parece, mas o contrário; 
Sim, o que eu devo supor 
É deserto e solitário
O teu coração de amor! 
Não digo por outra; invejo
Talvez a sorte de alguém...
Mas o que eu seu, o que eu vejo, 
É que me não queres bem! 
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domingo, 23 de fevereiro de 2014

A CANÇÃO DO REI THULE - Por Goethe


A CANÇÃO DO REI THULER 
Por Goethe 
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Era uma vez um bom rei 
Em Thule - essa ilha distante. 
Ao morrer, deixou-lhe a amante
Um copo de ouro de lei. 
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Era um copo de ouro fino
Todo lavrado a primor; 
Se fosse o cálix divino
Não lhe tinha mais amor. 
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Seus tristes olhos leais
Não tinham outra alegria; 
E só por ele bebia, 
Nos seus banquetes reais. 
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Chegada a hora da morte
Pôs-se o rei a meditar
Grandeza da sua sorte
Seus reinos à beira-mar. 
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Deixava um rico tesouro,
Palácios, vilas, cidades; 
De nada tinha saudades, 
A não ser do copo de ouro .
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No castelo da  devesa, 
Naquelas salas sem fim, 
Mandou armar uma mesa
Para um último festim.  
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Convidou sem mais tardar 
Os seus fieis cavaleiros, 
Para os brindes derradeiros
No castelo à beira-mar. 
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Então, vazando-o de um trago, 
E com entranhada mágoa, 
Pôs nas ondas o olhar vago
E atirou com a taça à água.  
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Viu-a boiar suspendida, 
Até que as ondas a levaram; 
Os olhos se lhe toldaram, 
E não bebeu mais em vida!
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Goethe 
Nicéas Romeo Zanchett 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Y - JUCA - PYRAMA - Por Gonçalves Dias

Y - Juca - Pyrama (Sc.de Sá) 

PRIMEIROS VERSOS 
No meio das tabas de amenos verdores, 
Cercados de troncos - coberto de flores, 
Ateiam-se os tetos da altiva nação; 
São muitos seus filhos, no ânimos fortes, 
Temíveis na guerra, que em densas cortes
Assombram das matas a imensa extensão. 
São rudos, severos, sedentos de glória, 
Já prélios incitam, já cantam vitória, 
Já meigos atendem à voz do cantor; 
São todos Timbiras, guerreiros valentes! 
Seu nome lá voa na boca das gentes, 
Condão de prodígios, de glória e terror! 


As tribos vizinhas, sem forças, sem brio, 
As armas quebrando, lançando-as ao rio, 
O incenso aspiram dos seus maracás; 
Medrosos das guerras que os fortes acendem, 
Custosos tributos ignavos lá rendem, 
Aos duros guerreiros sujeitos na paz. 


No centro da taba se estende um terreiro, 
Onde ora se aduna o concílio guerreiro
Da tribo senhora, das tribos servis; 
Os velhos sentados praticam d'outrora, 
E os moços inquietos, que a festa enamora, 
Derramam-se em torno dum índio infeliz. 


Quem é? - ninguém sabe; seu nome é ignoto, 
Sua tribo não diz; - mas de um povo remoto 
Descende por certo - dum povo gentil; 
Assim lá na Grécia ao escravo insulano 
Tornavam distinto do vil muçulmano
As linhas corretas do nobre perfil. 


Por casos de guerra caiu prisioneiro
Nas mãos dos Timbiras; - no extenso terreiro
Assola-se o teto que o teve em prisão; 
Convidam-se as tribos dos seus arredores, 
Cuidosos se incumbem do vaso das cores, 
Dos vários aprestos da honrosa função. 
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Acerta-se a lenha da vasta fogueira, 
Entesa-se a corda da embira ligeira, 
Adorna-se a maçã com penas gentis; 
A custo entre vagas do povo da aldeia
 Caminha o Timbira, que a turba rodeia, 
Garboso nas plumas de variado  matiz. 


Em tanto as mulheres com leda trigança, 
Afeitas ao rito da bárbara usança, 
O índio já querem cativo acabar; 
A coma lhe cortam, os membros lhe tingem, 
Brilhante enduape  no corpo lhe cingem, 
Sombreia-lhe a fronte gentil Canitar.


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BREVE BIOGRAFIA 
Antônio Gonçalves Dias, poeta brasileiro, nasceu em Caxias, Maranhão, a 10 de Agosto de 1823, e faleceu a 3 de Novembro de 1864 no naufrágio do Ville de Boulogne. Foi estudar em Portugal onde fez os preparatórios e o curso de direito na Universidade de Coimbra. Voltando ao Brasil dedicou-se à advocacia que abandonou pouco tempo depois, sendo nomeado lente de história e latinidade no Colégio de D. Pedro II. Era sócio do Instituto Histórico e Geográfico brasileiro e de outras associações literárias. É considerado um dos poetas que mais contribuiu para a libertar a poesia brasileira do classicismo. Escreveu: Primeiros Contos, 1846; Segundos Contos e sextilhas de Frei Antão, 1848; Últimos Contos, 1850; Leonor de Mendonça (drama); Boabdil (drama inédito), 1865; etc. Contribuiu também com memórias muito interessantes para a Revista do Instituto Histórico; O Brasil e a Oceania. 
Nicéas Romeo Zanchett 

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